Textos A auto-regulamentação dos mercados financeiros é a grande culpada pela recente crise financeira mundial
A auto-regulamentação dos mercados financeiros é a grande culpada pela recente crise financeira mundial PDF Imprimir E-mail
Ter, 12 de Agosto de 2008 19:33
Texto publicado em RECOs Aliança & Parceria BECE-REBIA Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras

" .....Até os anos 1960, tomar um empréstimo nos Estados Unidos para comprar uma casa era um processo rudimentar. O cliente procurava uma agência e respondia a um imenso questionário. A análise da papelada levava semanas, num trabalho em que contava muito a forma subjetiva do funcionário do banco. Não eram incomuns as queixas sobre discriminação, tanto que em 1974 e em 1976 foram aprovadas leis que determinaram tratamento igualitário aos clientes, independentemente de raça ou religião.... No fim dos anos 1960, o sistema começou a mudar, quando ganhou impulso a chamada securitização, que permite transferir operações de crédito do balanço dos bancos para o mercado de capitais...."


Por Newton Marques

 

O mundo financeiro está mergulhado em uma crise somente comparada à da Grande Depressão, em 1929.

E o que motivou essa grave crise?

A bolha da vez é a do mercado americano de hipotecas, com a crise de liquidez subseqüente, que agora completa um ano, a duras penas contida pelos bancos centrais norte-americano e europeu. Seus desdobramentos mantêm os mercados de crédito tomados pela insegurança, as bolsas de valores patinam em números de franca mediocridade e economias de todos os tamanhos perdem fôlego.
Foram os financiamentos hipotecários norte-americanos que "bombaram" quando havia taxas de juros baixas nos EUA, com a farta e abundância de recursos financeiros (liquidez).

As pessoas compravam suas casas e o sistema financeiro encarregava-se de viabilizar os negócios. Seja pelos recursos financeiros do próprio financiamento hipotecário, deixando como garantia a própria casa, seja por meio da securitização dos recebíveis imobiliários, que são os próprios financiamentos de longo prazo, criando ativos financeiros para serem "negociados" com alta rentabilidade nos mercados financeiros locais e internacionais.

No início, havia maior cuidado na análise de risco de crédito nos mercados prime (conhecido como de primeira linha, pois tinha garantias reais), posteriormente desenvolveu-se os mercados subprime (de segunda linha, que não tinha garantias e nem comprovação de renda dos promitentes compradores).

Enquanto, havia valorização dos imóveis, os negócios fluíam azeitadamente, pois as engrenagens não tinham nada que as emperrassem.

Mas, com as subidas das taxas de juros, provocadas pelo Fed (banco central dos EUA) com vistas ao controle da inflação, a atividade econômica passou a desacelerar-se, provocando desemprego e com isso a tão temida inadimplência dos financiamentos. Quebrava-se assim aquela corrente da felicidade!

Inúmeras tentativas estão sendo feitas no sentido de solucionar essa crise, como os pacotes do Governo dos EUA para ajudar aos inadimplentes compradores das hipotecas, bem como o redesconto de liquidez dos bancos centrais àqueles que detêm os "ativos" agora podres (porque não conseguem se desfazer deles) e que provocam sérios e graves problemas de liquidez (falta de grana!).

O economista austríaco Joseph Schumpeter associou as crises financeiras às novas tecnologias. Os investidores superestimam os lucros potenciais das inovações, aplicam recursos em excesso e inflam os preços de ativos. Quando a bolha estoura, os investidores perdem dinheiro e as economias entram em colapso. Mas as novas tecnologias sobrevivem e continuam a criar riquezas.

A crise do "subprime" também ocorre na esteira de criações admiráveis. São produtos da engenharia financeira, talvez não tão visíveis a olho nu, como os inventos das engenharias de transportes e de telecomunicações, mas que também trazem bem-estar.

Até os anos 1960, tomar um empréstimo nos Estados Unidos para comprar uma casa era um processo rudimentar. O cliente procurava uma agência e respondia a um imenso questionário. A análise da papelada levava semanas, num trabalho em que contava muito a forma subjetiva do funcionário do banco. Não eram incomuns as queixas sobre discriminação, tanto que em 1974 e em 1976 foram aprovadas leis que determinaram tratamento igualitário aos clientes, independentemente de raça ou religião.

No fim dos anos 1960, o sistema começou a mudar, quando ganhou impulso a chamada securitização, que permite transferir operações de crédito do balanço dos bancos para o mercado de capitais. O pulo-do-gato foi transformar financiamentos imobiliários, que são ativos típicos de bancos, em produtos financeiros ao gosto dos mercados de capitais - títulos que podem ser negociados a qualquer tempo pelos investidores, como fundos de previdência e seguradoras.

E para serem considerados como títulos prime tinham que ter a chancela das agências de rating que classificam os riscos de crédito com elevados conceitos de grau de investimento (conhecido como triplo A). O que permitia, assim, que as instituições pudessem carregar, em suas carteiras de aplicações financeiras, esses papéis sem aportar capital regulamentar.

O volume contratado no mercado "subprime" aumentou de US$ 65 bilhões em 1995 para mais de US$ 1,0 trilhão em 2007, de acordo com publicações especializadas de mercado. Segundo dados do setor, a inadimplência do mercado hipotecário atinge cinco milhões de moradias.

E agora, após a crise atingir agora vários países e a própria globalização dos mercados financeiros e econômicos, quem podemos apontar como os principais culpados?

O principal culpado é a auto-regulamentação dos mercados. Ao longo do capitalismo, e agora, como menina dos olhos do neoliberalismo, ninguém queria admitir que os mercados financeiros fossem regulados pelo Estado. Costumava-se dizer que deixar o setor público regulamentar os mercados era uma heresia! Também não se pode deixar de incluir o próprio desenho do sistema financeiro nos EUA, o qual deixou o Fed (banco central norte-americano) sem instrumentos e poderes para intervir em outras instituições que não fossem os bancos comerciais, com vistas a evitar o tão temido risco sistêmico.

Agora, com o estágio dessa crise, a solução é a intervenção do Estado, como imprescindível para que seja evitada a quebradeira generalizada das economias globalizadas (conhecido como risco sistêmico), como temos visto pelas ajudas financeiras do governo dos EUA, coordenadas com as ações de diversos bancos centrais (europeu, britânico, canadense, japonês e até chinês), evitando assim, a escassez de liquidez nos mercados financeiros globalizados.

Fica a sensação de que o Estado socializa os prejuízos após os capitalistas privatizarem os lucros. Eles esperam o perdão por terem alavancado seus instrumentos financeiros sob os auspícios do risco moral (moral hazard), ameaçando os sistemas econômicos, como o sistema circulatório pode provocar os devidos estragos no corpo humano dos cidadãos!

Comentarios (0)Add Comment

Escreva seu Comentario

security code
Escreva os caracteres mostrados


busy