Textos A ortodoxia se rende mais uma vez à heterodoxia econômica
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Ter, 02 de Março de 2010 19:41

Algumas reflexões sobre as terapêuticas adotadas pelos EUA e os países ricos para enfrentar a recente crise econômico-financeira mundial 

Introdução

Essa crise financeira que, já contaminou fortemente o lado produtivo da economia, surgiu nos países ricos, inicialmente nos EUA e depois na Europa. Foi apelidada de NINJA, pois tanto serviu para registrar esse grave momento, onde os cidadãos ficaram sem renda, emprego e patrimônio (No Income, No Job or Assets), como também pela rapidez que surgiu como metástase dos tecidos do sistema econômico mundial, provocando assim forte desaceleração de sua atividade econômica, e possivelmente se transformará na pior crise, podendo até superar as graves conseqüências econômicas originadas na Crise de 1929 (A Grande Depressão), em razão do aprofundamento do processo de globalização dos mercados e com os avanços dos mercados tecnológicos e financeiros.

No início das discussões em meados de 2007, acreditava-se que a crise seria rápida assumindo uma trajetória do crescimento econômico dos EUA (e em conseqüência da economia mundial) em forma da letra V, pois significava queda e rápida retomada do crescimento. Posteriormente, acreditava-se em trajetória semelhante à letra U, pois apresentava um período mais longo de recessão e conseqüentemente demora na retomada do crescimento. Atualmente, existe forte corrente de pensamento que aposta na letra L, ou seja, a crise não tem horizonte para a recuperação econômica (uns dizem 2010, e outros não dizem nada!), pois vai atingir grandes proporções e graves conseqüências econômicas superiores àquelas originadas na Crise de 1929 (A Grande Depressão), em razão da forte contaminação no lado produtivo nos países ricos e emergentes e que se estenderá fortemente por todas as economias, com o aprofundamento do processo de globalização dos mercados e com os avanços dos mercados tecnológicos e financeiros.

Essa crise se originou com as baixas taxas de juros norte-americanas a partir dos anos 90, após ter chegado a mais de 16% em 1981, passando para taxas que variaram de 2,5% a 4,0% entre 1992 e 2001, que foram reduzidas a menos de 1,0% em 2003, e elevadas até 3,0% em 2007, e agora está próxima de 0%.

Com esses movimentos de altas e baixas de taxas de juros norte-americanas foi criada uma bolha financeira especulativa que estourou em 2007, como conseqüência das políticas macroeconômicas, basicamente das políticas monetárias que visavam o controle da inflação provocando a crise de inadimplência que atingiu o mercado de hipotecas norte-americano no final da metade de 2007, afetando os lucros dos bancos e provocando corridas e saques bancários, e resultando em forte contração de liquidez na economia, afetando o lado produtivo das economias dos EUA e mundiais.

Ao longo do processo da criação dessa bolha imobiliária, as pessoas compravam suas casas e o sistema financeiro encarregava-se de viabilizar os negócios. Obtinham os recursos financeiros por meio do próprio financiamento hipotecário, deixando como garantia a própria casa, e os agentes financeiros negociavam esses créditos por meio da securitização dos recebíveis imobiliários, que são os próprios financiamentos de longo prazo, criando ativos financeiros para serem "negociados" com alta rentabilidade nos mercados financeiros locais e internacionais, como foram os casos dos mortgage backed securities (MBS) , credit default swaps (CDS) e collateralized debt obligations (CDO)

Havia maior cuidado na análise de risco de crédito nos mercados prime (conhecido como de primeira linha, pois tinha garantias reais), posteriormente foram desenvolvidos os mercados subprime (de segunda linha), que não tinham garantias e nem comprovação de renda dos promitentes compradores.

Até os anos 1960, tomar um empréstimo nos Estados Unidos para comprar uma casa era um processo rudimentar. O cliente procurava uma agência bancária e respondia a um imenso questionário. A análise da papelada levava semanas, num trabalho em que contava muito a forma subjetiva do funcionário do banco. Não eram incomuns as queixas sobre discriminação, tanto que em 1974 e em 1976 foram aprovadas leis que determinaram tratamento igualitário aos clientes, independentemente de raça ou religião.

No fim dos anos 1970, o sistema começou a mudar, quando ganhou impulso a chamada securitização, que permite transferir operações de crédito do balanço dos bancos para o mercado de capitais. A engenharia financeira encontrada pelo mercado foi transformar financiamentos imobiliários, que são ativos típicos de bancos, em produtos financeiros ao gosto dos mercados de capitais - títulos que podem ser negociados a qualquer tempo pelos investidores, como fundos de investimento e de pensão e empresas de seguros.

Enquanto, havia valorização dos imóveis, provocada pelo aumento dos créditos hipotecários e pela própria conjuntura, os negócios fluíam adequadamente, pois nada impedia o bom funcionamento das engrenagens das hipotecas e securitização desses créditos.

À medida que os mercados começaram a se agitar (fortes quedas nos índices de bolsas, elevação dos juros e câmbio spot e futuros), procuraram descobrir o valor e os detentores dos prejuízos que já apareciam ou iriam aparecer, ficava cada vez mais claro que os problemas com o estouro da bolha dos imóveis foram amplificados muito além do imaginável pela hiper-alavancagem dos fundos de investimento (fundos de hedge e de pensão), e dos bancos que os financiaram.

Ademais, esse longo processo da criação dessa bolha especulativa financeira, pode ser explicado por alguns analistas econômicos como inflação dos preços dos ativos e somente ganhou força e autonomia, porque os EUA não aumentaram a sua produtividade e nem mesmo deu bolas ao caráter do aumento do emprego e renda via lado produtivo, mas tão-somente pelo lado rentista, o que todos sabem historicamente que não tem vida longa sob as forças produtivas do capitalismo.

Esse processo foi favorecido por algumas situações. A primeira foi uma valiosa ajuda das agências de rating, que classificaram os papéis da securitização das hipotecas imobiliárias como se fossem títulos do Tesouro Norte-Americano (conhecidos como baixíssimo risco e elevada liquidez, com o conceito de triplo A), mesmo sem terem um mercado secundário, e que foi de fundamental importância para o espetacular furo nessa bolha.

A segunda foi a auto-regulamentação do mercado de derivativos, patrocinada pelo ex-presidente do Fed, Sr. Alan Greenspan, o qual acreditava que os mercados, principalmente, os de derivativos, se auto-regulassem e que não havia necessidade de nenhum órgão regulador.

E, finalmente, outra valiosa contribuição decisiva para estourar essa bolha foi a ausência de poderes do Fed em evitar o risco sistêmico no caso dos bancos de investimento, os quais tinham liberdade para fazer o que quisessem sem serem importunados pelos órgãos reguladores, que não tinham o menor compromisso com a assimetria de informações que provoca o risco sistêmico, conhecido como a quebradeira generalizada de instituições bancárias provocando corridas bancárias e paralisação nos mercados produtivos.

O economista austríaco Joseph Schumpeter associou as crises financeiras às novas tecnologias. Os investidores superestimam os lucros potenciais das inovações, aplicam recursos em excesso e inflam os preços de ativos. Quando a bolha estoura, os investidores perdem dinheiro e as economias entram em colapso. Mas as novas tecnologias sobrevivem e continuam a criar riquezas.

A crise do "subprime" também ocorreu na esteira de criações admiráveis. São produtos da engenharia financeira, talvez não tão visíveis a olho nú, como os inventos das engenharias de transportes e de telecomunicações, mas que também trazem bem-estar aos cidadãos e agentes econômicos.

O volume contratado no mercado "subprime" aumentou de US$ 65 bilhões em 1995 para mais de US$ 1,0 trilhão em 2007, de acordo com publicações especializadas de mercado. Segundo dados do setor, a inadimplência do mercado hipotecário atinge cinco milhões de moradias.

Com isso, o mercado financeiro internacional foi contaminado, provocando o "credit crunch" (escassez de crédito), originado particularmente nos EUA.

A atual crise mundial foi afetada por uma crise de solvência ou de liquidez?

A posteriori, os analistas econômico-financeiros costumam ser mais precisos e cuidadosos em seus comentários sobre as causas que provocaram o atual estágio dessa grave crise mundial.

Inicialmente, acreditava-se que o principal problema oriundo da corrida bancária era a escassez de crédito, proporcionada pela inexistência do mercado secundário dos papéis atrelados ao mercado hipotecário, notadamente, daquele de alto risco ("subprime").

Tanto foi assim, que os bancos centrais dos países ricos (Fed, Bank of England, Banco Central Europeu, Bank of Japan, entre outros) criaram linhas especiais de redesconto (renováveis) para suprir por curto prazo a falta de liquidez dos bancos com relação aos saques dos seus fundos e das suas contas bancárias, colateralizados por papéis associados ao mercado hipotecário, os quais eram conhecidos como "moedas podres", sem mercado secundário.

Hoje, alguns poucos analistas do mercado financeiro admitem que se tivesse sido feito diagnóstico correto no início dessa crise financeira hipotecária dos EUA, em 2007, a terapêutica teria sido mais eficaz em minimizar os seus efeitos mundialmente, entretanto, o Fed e o Bank of England, por exemplo, somente descobriram os seus erros de avaliação tardiamente, quando o estouro de boiada e a corrida bancária já haviam acontecido, transmitindo rapidamente ao setor produtivo e financeiro mundial.

Aqui é importante ressaltar que as terapias a serem adotadas diante de um diagnóstico de crise de liquidez diferem significativamente de um diagnóstico de crise de solvência. Em geral, a crise de liquidez resolve-se via operações compromissadas dos bancos centrais, mas a crise de solvência é um grave erro de supervisão dos órgãos reguladores, bem como tende a riscos sistêmicos. Somente, quando o Banco da Inglaterra saiu na frente comprando as ações das instituições financeiras com problemas de solvência é que os EUA abriram os olhos e tomaram igual atitude, mas com muita desconfiança e com muito atraso, o que permitiu que o Lehman Brothers fosse reconhecido como grave erro e desencadeado a contaminação nos sistemas financeiros.

Ademais, não é desprezível admitirmos que o modelo adotado para o sistema financeiro dos EUA durante muito tempo, iniciado pelo Glass-Steagal Act, de 1933, até o Gramm-Leach-Bliley Act, de 1999, segregou os sistemas normativo e operativo dos mercados financeiro e de capitais, e criou espaço para que fosse estimulada e inflada a bolha especulativa do setor hipotecário pelos bancos de investimento. Com isso, o Fed foi tolhido dos seus poderes de órgão regulador para minimizar o risco sistêmico (preconizado pelo Comitê de Supervisão Bancária do BIS), ao lado do estímulo do Sr.

Greenspan para a auto-regulação dos mercados de derivativos, bem como permissão da Securities Exchange Comission (SEC), que é a equivalente à nossa CVM, para que os normativos contábeis incluíssem esses lançamentos dessas operações fora dos balanços (off-balance sheet).

O relatório mais abrangente sobre os credit-default swaps (CDS), com um mercado de mais de US$ 47 trilhões, não revela as apostas que contribuíram para destruir a American International Group (AIG), que já foi a maior seguradora do mundo.

Um estudo da Depository Trust and Clearing Corp. (DTCC), a agência que liquida e compensa operações das bolsas nos Estados Unidos não inclui os CDS negociados em particular pelas seguradoras como AIG, MBIA e Ambac Financial Group, para garantir os ativos conhecidos como obrigações da dívida colateralizada(CDOs).

O relatório da DTCC mostrou que existe total de US$ 33,6 trilhões de transações com papéis de governos, empresas e títulos vinculados a ativos em todo o mundo, com base em dados brutos.

As operações com derivativos sobre crédito se multiplicaram por cem na última década, uma vez que bancos, fundos de hedge, seguradoras e outros investidores usaram esses contratos para se proteger contra prejuízos ou especular com títulos que não possuíam.

Esse crescimento foi puxado, em parte, pelos CDOs, títulos que combinam ativos como bônus, empréstimos e credit-default swaps, dividindo-os em diversos níveis de risco.

Em todo o mundo, os bancos registraram baixas contábeis e prejuízos de US$ 693 bilhões com empréstimos, CDOs e outros investimentos desde o começo de 2007, segundo dados compilados pela "Bloomberg".

A AIG informou aos investidores em agosto de 2007, pela primeira vez, que detinha mais de US$ 440 bilhões de negócios envolvendo swaps de crédito vinculados a CDOs. A empresa, sediada em Nova York, se encontrava à beira da falência em setembro último, depois que o valor dessas transações despencou. A seguradora teve que entrar com mais de US$ 10 bilhões em garantias para respaldar os contratos, depois que a classificação da sua dívida foi rebaixada. Aceitou um empréstimo de US$ 85 bilhões do governo em troca do controle.

A MBIA e a Ambac, que já foram as duas maiores seguradoras de bônus do mundo, perderam este ano a classificação AAA, a mais elevada, devido as perdas potenciais com swaps de crédito vendidos para garantir CDOs vinculados a empréstimos para a compra de imóveis.

Uma pesquisa de mercado realizada em 2008 pela International Swaps and Derivatives Association, que inclui os swaps de crédito sobre CDOs e outros contratos que podem não ter sido detectados pela DTCC, estima que mais de US$ 47 trilhões em contratos brutos estejam em circulação.

Assim, atingiu-se a globalização do comércio mundial e dos mercados financeiros (monetário, crédito e cambial) e de capitais, ao longo de 2008, culminando com a sua fase mais aguda neste segundo semestre.

Terapêuticas adotadas pelos governos dos países ricos e emergentes

Inúmeras tentativas vêm sendo feitas no sentido de solucionar essa crise, como vários pacotes do Governo dos EUA para ajudar aos inadimplentes compradores das hipotecas e compra de ações dos bancos que estão ameaçados de falência ou graves problemas de corridas de saques, bem como o redesconto de liquidez dos bancos centrais àqueles que detêm os "ativos" agora podres (porque não conseguem se desfazer deles) e que provocam sérios e graves problemas de liquidez.

Em fevereiro de 2008, o Congresso aprovou pacote de estímulo aos consumidores norte-americanos, no qual havia cheques de restituições aos contribuintes, o que atenuou o momento da crise financeira.

Posteriormente, em setembro de 2008, o Congresso dos EUA aprovou plano de ajuda ao sistema financeiro no valor de US$ 700 bilhões (os quais tiveram a inclusão feita pelos deputados de mais US$ 150 bilhões por meio de corte de impostos, benefícios fiscais para a classe média, pequenos empresários e famílias atingidas por acidentes naturais), com vistas a permitir a compra dos denominados de "títulos podres" (papéis ligados aos setores hipotecários subprime).

Outras soluções dadas pelo governo dos EUA e do Reino Unido foram a capitalização dos bancos que estavam com problemas de solvência, por meio de recursos dos seus respectivos Tesouros.

Fica a sensação de que o Estado socializa os prejuízos após os capitalistas privatizarem os lucros. Eles esperam o perdão por terem alavancado seus instrumentos financeiros sob os auspícios do risco moral (moral hazard), ameaçando os sistemas econômicos, como o sistema circulatório pode provocar os devidos estragos no corpo humano dos cidadãos!

Essa crise mundial não tem sido pior, pois tem havido uma coordenação das políticas monetárias entre os países do G7, com vistas a evitar pioras da liquidez financeira, o que poderia criar severo travamento no crédito mundial, conseqüentemente, no lado produtivo ou real da economia desses países ricos. Entretanto, para sair dessa armadilha de liquidez, somente tem eficácia as políticas públicas, as quais encontram fortes resistências nos países da Área do Euro, em razão das metas fiscais impostas pelo Tratado de Maastricht, bem como pela ausência de autonomia que tem esses países que adotaram o euro como sua moeda e que impede o manejo das políticas públicas para criar o princípio da demanda efetiva como forma de incentivar a retomada do ciclo econômica à la Keynes.

As taxas de juros básicas dos EUA, Reino Unido, Japão, Canadá, Suíça, Austrália, estão muito baixas, aproximando-se de zero. O mundo dos países ricos está no que o Lord Keynes denominou na teoria econômica de "armadilha da liquidez", onde nenhuma ação de política monetária permite a retomada da atividade econômica. Somente as políticas fiscais têm condição de aumentar o nível de emprego e renda desses países.

Curiosamente, alguns países emergentes, como o Brasil, não estão em péssima situação macroeconômica, pois essa grave crise mundial os apanhou em fase de crescimento da atividade econômica, com ajustes fiscal e monetário, e baixo grau de endividamento externo público, mas não privado. Entretanto, como dependem fortemente do processo de globalização de seus mercados comercial e financeiro, têm sofrido fortes desvalorizações cambiais e elevados e crescentes déficits nas contas-corrente dos seus balanços de pagamento.

CONCLUSÃO

Enfim, quais são as lições que nós, economistas, temos que tirar desse momento de grave crise mundial?

Os sistemas financeiros mundiais devem ser devidamente acompanhados, normatizados, fiscalizados, regulados e auditados, para que seja evitada situação semelhante a essa que aconteceu recentemente nos EUA e na Europa.

As autoridades fiscalizadoras e reguladoras mundiais não podem continuar a serem complacentes com as grandes transformações e inovações financeiras, deixando que a auto-regulamentação cumpra esse papel, bem como se omitirem de exercer algum tipo de controle sobre as agencias de rating. Outro grave equívoco que deve ser evitado é o banco central não ter poderes para evitar o risco sistêmico, como foi o caso recente do FED.

Os analistas e as autoridades, notadamente, nos EUA equivocaram-se ao diagnosticar essa crise como se fosse uma mera inflação de preços de ativos e que iria rapidamente se ajustar.

A discussão sobre a utilização do arsenal macroeconômico pelos governos para controlar a inflação de bens e serviços não pode prescindir de se preocupar também com a inflação dos preços dos ativos, mesmo sabendo-se que aquela inflação é um processo generalizado, sem descontinuidades e que não se interrompe por si mesmo, e que a de preços dos ativos é um fenômeno setorial, descontínuo e que pode se exaurir repentinamente, independentemente das políticas macros. Será que não aprendemos o suficiente com as lições dadas por essa grave crise mundial!

O processo de deflação deve ser evitado a qualquer custo, mesmo sabendo que aumenta o valor dos ativos em relação à renda e à riqueza dos devedores, dificulta a desalavancagem e prolonga a deterioração dos ganhos obtidos nos momentos de prosperidade, como é o caso da taxa dos fed funds tenderem a zero, o que não impedirá que o valor dos ativos fique abaixo do valor das dívidas ou hipotecas nos EUA.

E o que podemos esperar para reativação do ciclo econômico com relação às medidas que os EUA tem tomado com a aprovação de pacotes fiscais para ajuda a bancos, empresas e consumidores (principalmente, os inadimplentes das hipotecas)?

Ainda existem etapas a serem queimadas. A primeira é fazer o crédito voltar a fluir, mesmo com o aumento de liquidez por meio do Fed , rasgando o livro das regras dos bancos centrais ao realizar operações compromissadas com papéis privados e "podres"(títulos securitizados e commercial papers) e montando engenharias financeiras para também agir indiretamente com o setor privado não-financeiro (caso das montadoras) inchando o seu balanço com títulos privados, e outros bancos centrais no mundo, em ação coordenada. Tudo isso é conhecido como meramente uma emissão monetária sem contrapartida pelo lado real ou produtivo!

É necessário também esquecer outra pedra angular da ortodoxia: o equilíbrio fiscal aliado ao controle monetário! Caso fosse por meio de investimentos públicos não seria problema, é até mesmo recomendável, entretanto, torna-se difícil essa operação porque tem como objetivo absorver os ativos podres do setor privado. Se essas operações fossem realizadas por meio de títulos públicos, encontraria compradores, mas com os títulos privados não têm valor e, portanto, não têm comprador. Trata-se, portanto, de uma doação ao setor privado, mesmo sendo travestido de operações com títulos públicos.

E pode ainda se tornar mais grave, caso o setor privado, mergulhado na deflação, decidir-se por entesourar esses recursos "doados" pelo governo dos EUA.
Enfim, existe um limite para a capacidade da assunção dessas dívidas privadas pelo setor público dos EUA, o qual deverá ser evitado a todo custo a ser atingido, dificultando assim sobremaneira as operações-hospital do Federal Reserve por meio das operações compromissadas dos papéis privados, bem como exigindo rapidez nas ações do governo dos EUA. Aliado a essa crise de liquidez, existe também a crise de solvência de inúmeras instituições bancárias.

Conclui-se, portanto, que essas inúmeras tentativas do governo dos EUA de aprovação de pacotes fiscais não é o de reanimar a sua economia, como tem sido dito pelo governo e muitos analistas econômico-financeiros a todos os quatro cantos do mundo, mas tão-somente o de evitar o colapso do sistema financeiro e restabelecer os canais de crédito que estão completamente danificados e bloqueados.

Anexos

A seguir são relacionados alguns fatos que foram considerados determinantes para o processo dessa grave crise mundial que aconteceram ao longo desses últimos dezoito meses.

1) Em agosto de 2007, o BNP Paribas Investment Partners congelou 2,0 bilhões de euros dos fundos Parvest Dynamic ABS, o BNP Paribas ABS Euribor e o BNP Paribas ABS Eonia, alegando inadimplência dos pagamentos do crédito "subprime" nos EUA.

2) A partir daí desencadeou-se reação de pânico no mercado hipotecário. A American Home Mortgage, uma das 10 maiores emprestas do crédito hipotecário nos EUA, pediu concordata; a Countrywide Financial, outra gigante do setor, foi comprada pelo Bank of América; os fundos de investimentos com carteira de papéis ligados às hipotecas "subprime" e ligados aos bancos do Citigroup e Bear Stearns (e que depois foi vendido ao JP Morgan) sofreram saques de bilhões de dólares.

3) Um dos maiores bancos de investimento dos EUA, Lehman Brothers, foi o pivô da contaminação da crise financeira no setor real ou produtivo da economia mundial, pois tentou sem sucesso comprador para seu controle, em setembro de 2008, bem como levantar fundos financeiros junto a outras instituições financeiras privadas para continuar suas operações financeiras, mas não teve sucesso. Ademais, teve que amargar a recusa de ajuda financeira em forma de empréstimo junto ao Federal Reserve (banco central dos EUA), o que foi considerado o maior erro do chairman Ben Bernanke, desencadeando fortes reações ao sistema financeiro mundial atingindo fortemente o setor produtivo ou real da economia dos países ricos.

4) Em setembro de 2008, o Tesouro Norte-Americano injetou vultosa soma de recursos financeiros na Fannie Mae, denominação do The Federal National Mortgage Association, que é uma agência governamental dos EUA que compra as hipotecas e as securitiza, criada em 1938 pelo setor privado, mas estatizada pelo Congresso em 1968, e na Freddie Mac, denominação do Federal Home Loan Mortgage Corporation, instituições que fazem parte do Federal Housing Finance Agency, autoridade reguladora do setor de hipotecas norte-americanas, como forma de garantir os US$ 12 trilhões desse mercado, em 2008.

5) Em seguida, o Merrill Lynch foi vendido ao Bank of América; houve ajuda financeira à gigante do setor de seguros AIG, na forma de injeção de recursos públicos de US$ 85 bilhões; houve a falência de uma das maiores instituições do ramo de empréstimos em poupança dos EUA, Washington Mutual.

6) o quarto maior banco norte-americano, Wachovia, foi vendido ao Wells Fargo, por US$ 15,1 bilhões, como conseqüência do desastroso negócio feito com a compra da companhia hipotecária Golden West Financial em 2006, por cerca de US$ 25 bilhões, que àquela época era visto como excelente negócio em momento de grande euforia do mercado hipotecário, assumindo US$ 122 bilhões em hipotecas do tipo "pick-a-payment", as quais caracterizavam-se por permitir que os mutuários deixassem de fazer alguns pagamentos.

 


1 - São ativos cujos fluxos de caixa são lastreados pelos pagamentos do principal e juros de uma série de empréstimos ou hipotecas imobiliárias. Esses pagamentos são feitos mensalmente durante a vida útil desses empréstimos subjacentes.

2 - É a forma mais simples de um contrato bilateral pré-acordado, sob a forma de títulos ou de empréstimos, entre um comprador e vendedor de proteção. O comprador de proteção desembolsará um pagamento periódico para o vendedor da proteção como retorno de uma garantia dada pelo vendedor até acontecer o sinistro ou houver o resgate total das obrigações especificadas na transação.

3- É uma forma de derivativo de crédito oferecendo exposure a um grande número de empresas em um único instrumento. Esta exposure é vendida em fatias ou pedaços de riscos variados ou subordinação, sendo conhecidos como tranche. Em um CDO de fluxo de caixa, os riscos de crédito subjacentes são títulos ou empréstimos mantidos pelo emissor. Alternativamente em um CDO sintético, a exposure para cada empresa subjacente é um credit default swap (CDS). Segundo dados da Moody´s, os spreads de crédito sobre os bônus de alto grau especulativo (junks) subiram de 260 pontos-base sobre os títulos do tesouro dos EUA, no início em 2007, para 1.200 pontos-base no final de 2008. O especialista Edward Altiman prevê que cerca de 100 bilhões de dólares em empréstimos alavancados pelos bancos para operações de compra de ações para tomada de controle de empresas estão vencendo agora, o que pode resultar em forte risco de crédito e contaminar os sistemas financeiros envolvidos.

4 -Gostaria de agradecer especialmente ao economista Tony Volpon, o qual foi o primeiro que me chamou a atenção para esse grave erro de análise por parte das autoridades supervisoras, notadamente, os bancos centrais dos países ricos.

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